terça-feira, 8 de maio de 2012

Entre Frestas e Arestas

A manhã de hoje
nasceu num acordar:
Breve e pintada em azul!

Coincidentemente, junto ao dia,
ela acordara, espreguiçara e
erguera seus pensamentos para
além da cabeceira da cama
e constrangera-se, sozinha,
ao perceber que não sonhara.
Ou apenas esquecera de sonhar?
Abstraíra a consciência do que era,
pois, já não mais era.
Debochara-se
E salientemente, esboçara sorrir.

" O silêncio é tão maior que a vida!"
e enchera-se de solidão e saudade.

O quarto ainda escuro
amadurecia a ideia de dia,
e se clareava preguiçosamente.
A brisa leve e prematura,
sussurrava às frestas da janela
um porvir,
quase que sem esperança:
Nesta manhã
ela deixará  pra trás
seus dias pequenos,
deixará para trás
seus amores por vaidade do amor,
deixará para trás
tudo que é oco, roto e sem cheiro.

Ela acordara, momentos atrás,
coincidentemente junto ao dia,
que ela não viu nascer,
pois, foi breve e pintado em azul!

sábado, 17 de março de 2012

Dominical II *

Um dia , antes da chuva
espalhei lírios pelo chão da casa,
acendi velas pros santos de gesso,
enchi de água e de respeito a quartinha de exú.
Saudei-os. Rezei velhas cantigas, Benzi-me.
Tudo isso, num dia, antes da chuva.

Cortei as unhas, me cortei fazendo barba
(nada demais),
perfumei a cicatriz de outrora,
com cheiro de madeiras e âmbar,
debrucei sobre a janela
um silêncio poetizado ao sol,
tão fundo,
respirei ao leito, minhas preces,
tão poucas, aos santos moucos

tudo isso, num dia, antes da chuva

Deixei o vento invadir minha saudade,
desde o cigarro aceso ao abajour aceso,
nossas roupas limpas secando à sombra,
da cama em desalinho ao cabelo desgrenhado
do pulso cortado ao porvir descalço
antes da chuva, num dia só, tudo isso.

Os olhos semi-cerrados, miudinhos
fingindo não ver, do outro lado da rua
alguém sentado embaixo da amendoeira
contando nos dedos seus dias de sol,
ou mesmo, fingindo não ver
a pessoa que pára, lê a matéria e não compra o jornal.

Da varanda, antes da chuva,
vendo a vida tão postiça,
lembro dos santos de gesso,
de minhas preces poucas
quando eu ainda não me era
ou quando nem sei se fui
ou de quando em vez pensava ser.

Isso era domingo, antes da chuva!


                                                                   

                                                                              * referência ao texto Dominical de Dani Santos
                                                                              http://poemices.blogspot.com.br/

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Entre o ronco e a chuva!

Quando chove e ronca trovoada
mamãe diz que é papai do céu,
em cima da nuvens
arrastando os móveis. Tá dando faxina!

Mas, quando chove,
e cai um relâmpago...
Isso é só relâmpago mesmo,
não tem outro nome ou encantamento.

O que sei da verdade
vem do cheiro da terra da tarde molhada
da saudade do cheiro
da criançada suja de barro
esperando o macio alaranjado
do pôr-do-sol
entre chuvas de tanajura
e bolhas de sabão no cabo da mamona.

O que sei da verdade
vem do medo do tempo
Medo de não tentar mais as nuvens,
enquanto corria de braços abertos
imitando avião!
Medo do balanço
enferrujar embaixo da mangueira, sozinho!
Apenas com o silêncio do vento
O assovio silencioso do vento...

Meu medo não vem do ronco da trovoada
ou relâmpago sem outro nome,
Meu medo!
Meu medo é de subir no alto da cerca
e não ver mais a vida, que tá tão lá fora...
Que tá tão do lado de fora!




sábado, 24 de dezembro de 2011

Ana Maria não sabe

De um lado ao outro
entre idas e vindas,
ao som mascado de
Billie Holliday  ou Sonic Youth,
Ela se desbarrancava em lágrimas.

Minhas mãos cheirando
a maracujá industrializado,
um pouco de cerveja
um pouco de tabaco
a repetir insignificâncias,
a repetir, repetir...repetir-se.

ela não sabe que dançamos roda,
que estamos de mãos dadas
e que nesse enquanto,
bebemos chuva!
Ah, se ela soubesse dos furos da parede!
Ah, se a parede soubesse dos furos dela!

As crianças brincam de roda
estão acesas pela iluminura do poste.
Mas ela não sabe, e inventa.
Inventa um dialeto febril
palpado na fome e na magreza infantil.

De um lado ao outro
entre idas e vindas,
ao som rasgado de Jamelão ou Lirinha...
As paredes são tão inanimadamente brancas
que escorrem e respiram as lágrimas dela
que não sabe!

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Lesbian Visited

Eu vou virar uma Lésbica,
Só pra ter no corpo
o besunte das orgias plásticas.

Eu vou virar uma Lésbica
só pra causar o fetiche
no menino moço
e suas fantasias de revista.

Eu vou virar uma Lésbica
só pra aguçar o desejo
do mancebo de olhos verdes
em seu infinito íntimo.

Eu vou virar uma Lésbica
só pra ser amamentada
pela menina maluquinha
de quinze anos

Eu vou virar uma Lésbica
só pra beber o sulco gástrico
sêmen digestivo
da freirinha purificada
de boquinha apertada.

Eu vou virar uma Lésbica
só pra desfrutar do apelo
do galã sem sal
das novelas mexicanas
e seus jargões infláveis.

Eu vou virar uma Lésbica
só pra inflamar
a veia chama
do pênis flácido!

Eu vou virar uma Lésbica!

Pois não desejo mais o Amor dos homens
pois não desejo mais Amar feito homem
(subitamente)

Eu vou virar uma Lésbica
só pra trepar amar lamber
sugar gemer tocar...
Na profundidade de uma mulher
( profundamente)

sábado, 3 de dezembro de 2011

A porta da Casa aberta

O piano regendo às calçadas,
Vícios, beatitudes, fogo.
Se arrastam, os blocos
por madrigais desabrochados.

Sem cura vamos nos serpenteando
ao mal que sobra
temos noites, ácidos e pele
vamos às raspas

nos abrindo feito porta
deixando entrar
um meio amargo de flauta doce
a violentar nossos dias pequenos.

O piano regendo às calçadas
noite a dentro, dentro do eu
lírico, ou prelúdico, ou gripado.
A porta da Casa aberta

Deixei entrar, desabrochar, se espalhar
o ocre doce do perfume, tinta fresca
não vi sair. A porta da casa aberta.
- Eu que só queria o cheirinho de mulher...

Lúdico, cansado, esvaído
o piano a reger as calçadas.
o cheirinho ido,
partido, sofrido, querido...Longe!


sábado, 29 de outubro de 2011

Amarelo, amarelado.

Sob esta manhã cinza
deixei meu corpo cair brevemente,
meu pequeno corpo ausente de tudo.
Amarelo, amarelado, caído,
Amarelado são os olhos,
o pâncreas, o fígado, o riso.
Caído, inerte, puído.
O mundo está amarelo,
cigarro filtro amarelo aceso.
A solidão está acesa,
Alheio está o silêncio à frente
do verbo prolongado, cansado,
conjugado em terminação -er:
ser
vencer
escorrer
nascer
crescer
morrer.

Os sonhos estão morrendo
em versos escorridos,
os vícios escorrem as ladeiras vãs
enquanto meu corpo cai brevemente,
amarelo, amarelado.
Minha boca tem gosto de café
e o cheiro de terra molhada
vai me entardecendo.
Tenho pés descalços
e um silêncio perdurado.
Tenho sobras, rascunhos e alma.

Esta manhã
sentei-me à varanda
e vi o céu morrer
amarelo, amarelado.